domingo, 8 de fevereiro de 2009

Uma Catarina...



Catarina Eufémia



Cantar Alentejano - Jose Afonso

Chamava-se Catarina
O Alentejo a viu nascer
Serranas viram-na em vida
Baleizão a viu morrer

Ceifeiras na manhã fria
Flores na campa lhe vão pôr
Ficou vermelha a campina
Do sangue que então brotou

Acalma o furor campina
Que o teu pranto não findou
Quem viu morrer Catarina
Não perdoa a quem matou

Aquela pomba tão branca
Todos a querem p’ra si
Ó Alentejo queimado
Ninguém se lembra de ti

Aquela andorinha negra
Bate as asas p’ra voar
Ó Alentejo esquecido
Inda um dia hás-de cantar.



Se Catarina Eufémia ainda vivesse, completaria hoje 81 anos. Esta ceifeira de 26 anos foi assassinada com um filho nos braços pela forças do regime de Salazar. Mulher trabalhadora, lutadora, reivindicava pelos seus direitos ("pão e trabalho") e de todo um povo que sofria nas mãos de um regime cruel. Uma mulher que marcará para sempre a nossa História, tanto a História de Portugal como a História da emancipação da Mulher Portuguesa.

O trágico dia de 19 de Maio de 1954 deverá sempre ser recordado como o dia em que a luta não parou, nem irá parar. Que este exemplo de vida nos sirva de inspiração, pois só reivindicando os nossos deveres e os nossos direitos é que conseguimos alcançar os nossos objectivos. Talvez não consigamos ver de imediato o resultado, tal como Catarina. Apesar de tudo, a Liberdade chegou 20 anos depois. Talvez Catarina não reconhecesse nem compreendesse o mundo de hoje, pois hoje há outras formas de luta...

Até sempre, Catarina!



domingo, 1 de fevereiro de 2009

Um escritor covilhanense

Não sei bem se são as dúvidas ou as certezas que fazem mover o mundo.

António Alçada Baptista, O Riso de Deus

sábado, 29 de novembro de 2008

Depois da ausência, a presença...

Eis que surge um acontecimento importante:a neve que teima em cair sobre a cidade da Guarda, neste final do mês de Novembro.


BALADA DA NEVE


Batem leve, levemente,
como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
e a chuva não bate assim.

É talvez a ventania:
mas há pouco, há poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho…

Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento com certeza.

Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria…
Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!

Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho…

Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
duns pezitos de criança…

E descalcinhos, doridos…
a neve deixa inda vê-los,
primeiro, bem definidos,
depois, em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!…

Que quem já é pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!…
Porque padecem assim?!…

E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
e cai no meu coração.

Augusto Gil